- João, quanto pelo trabalho?
-Se é só para matar, 100 por cabeça, agora, pra judiar, 500.
-Quero judiaria! Quero ver o sangue daqueles merdas espalhado pelo chão!
- Então o senhor já sabe o preço.
Dei o prazo de vinte e quatro horas pro meu serviço ficar pronto.
Meu trabalho pode parecer cruel, mas não me entenda mal, os gritos de dor não me dão prazer. A inspiração de planejar uma morte, de apavorar é que aguçam meu tesão. Sinto uma puta sensação quando vejo os olhos arregalados daqueles cagões.
Saí pra caçada. A casa ficava do outro lado da cidade, rua arvorezinha, número 15. Sabia que precisava barbarizar, seria serviço completo. Não apenas chegar lá e matar, precisava apavorar, torturar.
Eram por volta das seis horas da noite. Cheguei na casa, a porta estava entreaberta. Era antiga, e tinha um odor terrível de urina e muitos papéis e livros rasgados pelo chão. Senti um prazer ainda maior em matá-los, detesto sujeira. Entrei sem fazer barulho, me parei num canto e fiquei esperando, para que sorrateiramente pudesse atacar. Sabia que mataria muitos, seria serviço sujo, complicado.
Um deles me enxergou, mas antes que pudesse fugir e talvez alertar os outros, o capturei. Havia prometido o serviço pronto num dia, e por experiência sabia que a carnificina é muito mais propícia à noite.
Comecei a tortura. Pendurei meu prisioneiro e enfiei agulhas no seu peito, para que com seus gritos de dor, atraísse seus familiares. Estava parado em um canto estratégico da sala, onde ficaria fácil surpreendê-los, e os miseráveis não teriam chance de fuga ou reação.
Aos poucos, apavorados com os gemidos de dor de seu parente, eles começaram a aparecer de todos os lados. Suas feições eram uma mistura de medo com raiva. Como sou macho, peguei meu facão e comecei de fato o trabalho.
Não sou ruim. Levo uma vida normal e tenho uma ótima família. Sei que alguns podem não entender meu trabalho, mas temos que viver de algum jeito. No início tudo era desagradável. Sentia repulsa, tonturas e ânsia de vômito por todo aquele sangue derramado. Até preferia os serviços mais simples, quando apenas precisava envenenar as vítimas. Mas tudo na vida é questão de costume, com o tempo aprendi a gostar do meu oficio, vi que era muito bom no que fazia. Sou um mestre da morte, e hoje prefiro o serviço sujo, o sanguinário, até por que rende muito mais.
Todos eles estavam à minha volta. O dono da casa me pagara para matar todos, sem piedade. Haviam invadido sua propriedade, estavam estragando seu patrimônio. Não julgo os motivos de quem me paga, apenas faço. Se fosse julgar não faria, pois por vezes os motivos são os mais banais. Comecei a distribuir cortes de facão por todos os lados, rolavam cabeças e membros pelo chão, e os que ainda estavam vivos se irritavam cada vez mais. O que parecia não ser da família tentou escapar, e quase atravessou a parede. Cortei-o ao meio. E eles vinham pra cima, tentavam me atacar. Mas sou macaco velho, trabalho com isso pra mais de vinte anos. Sei exatamente onde acertar a lâmina, o lugar que dói mais, o que mata antes.
Estava acabado, havia concluído o serviço, apenas um ser vivo habitava aquela velha casa, Eu. Muito sangue espalhado pelo chão, o lugar cheirava a morte. Mas tinha de ser assim, tinha sido pago pelo trabalho sujo, e foi desse jeito que fiz.
Então, fui contar as boas novas ao meu pagador.
- Matou João?
-Não foi fácil meu senhor. Mas os ratos estão mortos.