Dia
cinza, molhado, frio. A falta de luz elétrica, pelo vento de há pouco, fez com
que os aparelhos fossem desligados. O único barulho vem da rua. A chuva
batendo na terra, os grilos em seu cricrilar compulsivo, alguns pássaros
corajosos, o latido repentino dos cachorros, e um leve ronco de sono recente,
compõem a trilha sonora. No ar, o cheiro ardido do filtro de cigarro que
queimou no cinzeiro marrom.
A
sala é retangular, quase quadrada. Em suas paredes, seis quadros, dispostos cirurgicamente.
Quase todos retratam cenas antigas, bucólicas, de filmes. Num deles, uma mãe carinhosa
tem seu filho no colo. O pequeno descansa serenamente, recostado no afago
materno. Embaixo do quadro, um balcão, que contém livros e algum material didático
no seu interior. Sobre o móvel, ao centro, um porta-retratos. Nele, fotografia dos
moradores da casa – pai, mãe e filho. Também, duas bombonieres, uma de cada lado. Uma branca, a outra verde.
Um
televisor grande fica em frente aos três sofás, sobre um rack. Embaixo, DVD com
vários filmes e mais porta-retratos. Num, Janice, a dona da casa, com os dois
irmãos quando crianças. Noutro, seus pais, e no último, os pais de Francisco, o
seu marido. Dos quatro anciãos da família, apenas a mãe dela continua viva.
Ainda,
compondo a decoração, no canto da peça, uma antiga máquina de costura. Hoje, servindo
somente como artigo de decoração. Por sobre, um moedor de pimenta e um ferro de
passar, tão ou mais velhos que a máquina.
De
mais, um ponto cintilante, a fumaça do cigarro, o odor do tabaco queimado
transpondo o ambiente, o ronco do fim de chimarrão, um livro fechado sobre as
pernas que vestem bombachas, e a fala:
- Dizia o pai, que a falta de luz é boa. Só assim a gente desliga a televisão e conversa.
- Dizia o pai, que a falta de luz é boa. Só assim a gente desliga a televisão e conversa.
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